Mortes no Hospital Anchieta: polícia detalha crimes, e diz que técnico de enfermagem injetou desinfetante em duas vítimas

Published 3 hours ago
Source: g1.globo.com
Mortes no hospital no DF: Fantástico teve acesso ao relatório da perícia A polícia do Distrito Federal investiga crimes cometidos dentro de um hospital por quem deveria zelar pela vida dos pacientes. Um técnico de enfermagem foi preso acusado de matar três pessoas ao injetar uma substância controlada e também desinfetante em pacientes internados na UTI. Segundo as investigações, Marcos Vinicius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, contou com a ajuda de outras duas técnicas de enfermagem, que também estão presas. A polícia apura agora se há outras vítimas. O hospital abriu uma sindicância para investigar o que aconteceu no dia 17 de novembro, quando dois pacientes tiveram paradas cardíacas à tarde e morreram horas depois. As vítimas foram Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, internada por causa de uma constipação, e João Clemente Pereira, de 63 anos. Havia um mês, ele sentia tontura e, no hospital, os médicos detectaram um hematoma na membrana que reveste o cérebro. A sindicância apontou que as mortes tinham relação direta com dois técnicos de enfermagem: Marcos Vinicius Silva Barbosa de Araújo e Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos. Dias depois, a apuração interna identificou a presença de uma terceira pessoa nos dias das mortes: a técnica de enfermagem Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos. “Ele, toda vez que injetou alguma medicação na veia dos pacientes, em segundos elas apresentaram paradas cardíacas”, diz o delegado Wislley Salomão. Além da medicação, o técnico injetou uma segunda substância: um desinfetante. Até então, a polícia acreditava que Marcos Vinicius havia aplicado desinfetante apenas em Miranilde, que ocupava o leito 24. Mas, ao reanalisar as imagens do leito 25, os peritos descobriram que ele também injetou o produto em João Clemente. Cada leito da UTI é monitorado por uma câmera de segurança. “A consequência disso é um choque circulatório, ou seja, uma pressão muito baixa para esses pacientes, consequentemente uma parada cardíaca imediata”, afirma o presidente da Associação de Medicina Intensivista Brasileira, Alexandre Amaral. “Se o paciente tiver acordado, consciente, ele vai sentir o que nós chamamos de sensação de morte: dor no peito, falta de ar, uma angústia muito forte.” O Fantástico teve acesso à reconstituição pericial dos crimes. Na manhã de 17 de novembro de 2025, Miranilde estava consciente e conversando. Uma hora depois, as câmeras mostram Marcos Vinicius usando a senha de médicos que não estavam no hospital para registrar no sistema a prescrição de uma substância controlada. Ele foi até a farmácia da UTI buscar o medicamento, que não havia sido prescrito para Miranilde. Em seguida, aplicou a primeira injeção. A paciente sofreu uma parada cardíaca, foi socorrida e sobreviveu. A substância era o cloreto de potássio, que tem indicações médicas específicas, como a reposição de potássio no organismo. “Primeira questão: ela não tinha indicação médica de uso dessa substância em nenhum dos exames ou do quadro clínico que ela apresentava”, diz a diretora do Instituto Médico Legal (IML), Márcia Reis. “Um grande dano que ele pode causar ao organismo são as arritmias cardíacas graves. A depender da concentração que é feita, a depender da velocidade que é feita, ele para o coração”, afirma Amaral. Cerca de 40 minutos depois, Marcos Vinicius aplicou uma segunda dose do medicamento. Miranilde sofreu nova parada cardíaca, foi socorrida e sobreviveu novamente. Os filhos dela estavam no hospital e acompanharam a situação. “Cada reanimação ele aplicava alguma coisa, até mesmo na frente dos médicos, e ninguém percebia nada”, afirma uma das filhas da vítima, Kássia Leão. Ainda segundo a perícia, horas depois, o técnico conseguiu injetar cloreto de potássio em João Clemente, que sofreu uma parada cardíaca, foi socorrido e sobreviveu. Marcos Vinicius voltou ao leito de Miranilde e aplicou mais uma injeção, provocando uma terceira parada cardíaca, da qual ela foi salva pela equipe. “Eu pensando que ele estava salvando a minha mãe. Ele estava matando cada vez mais a minha mãe”, diz Leão. Pouco tempo depois, o técnico aplicou o desinfetante diante das técnicas Marcela e Amanda. Segundo a investigação, os três participavam dos procedimentos de ressuscitação. Após a aplicação do produto, Miranilde sofreu a quarta parada cardíaca. Em seguida, o técnico injetou desinfetante novamente. Miranilde morreu. Na mesma noite, ainda de acordo com a investigação, Marcos Vinicius fez mais duas aplicações de cloreto de potássio em João Clemente e também injetou desinfetante. Ele morreu na madrugada do dia seguinte. A terceira vítima foi o carteiro Marcos Raymundo Moreira, internado no Hospital Anchieta em 18 de novembro com suspeita de pancreatite. “O cardiologista descartou qualquer hipótese de problemas cardiológicos”, conta a viúva, Denilza da Costa Freire. Mesmo assim, Marcos Raymundo sofreu uma parada cardíaca, foi intubado e ficou internado por 14 dias. Segundo a polícia, ele sofreu uma segunda parada em 1º de dezembro e morreu depois de receber uma injeção aplicada por Marcos Vinicius. O técnico está preso temporariamente na carceragem do complexo da Polícia Civil do Distrito Federal. Em depoimento, primeiro negou os crimes, mas depois foi confrontado com as imagens das câmeras da UTI e admitiu as mortes. “No depoimento, ele foi uma pessoa que não demonstrou emoção. Ele alegou que teria praticado os crimes porque o hospital estava muito movimentado. Como essa justificativa não é plausível, ele deu uma segunda justificativa, falando que estaria aliviando a dor dos pacientes. Isso também não é uma motivação. Então nós precisamos aprofundar para saber o real motivo que fez com que ele e essas duas técnicas cometessem esse crime”, diz Salomão. As técnicas Marcela e Amanda foram levadas para a penitenciária feminina. “As duas presenciam o técnico injetando tanto a medicação quanto o produto diretamente na veia dos pacientes e não fizeram nada para impedir aquele resultado”, afirma o delegado. Em nota, a defesa de Marcos Vinicius não negou a acusação, mas informou que vai se manifestar apenas no inquérito, que corre sob sigilo. A defesa de Marcela da Silva afirma que ela lamenta o que aconteceu com as vítimas e que a dignidade dela e a verdade serão restabelecidas no processo. O advogado de Amanda de Sousa disse que ela e Marcos Vinicius tiveram um relacionamento. “Ela se sente assim: manipulada por ele. E isso não quer dizer que ela tenha cooperado em nada com ele. Ela diz manipulada porque ela teve um relacionamento com ele”, afirma o advogado Liomar Santos Torres. “Nega participação e nega as acusações, e nós vamos provar isso ao final do processo.” Em nota, o Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal afirmou estar preocupado com a repercussão do caso e disse que generalizações prejudicam uma categoria formada por profissionais éticos e comprometidos com a vida. Já o Hospital Anchieta afirmou que se solidariza com os familiares das vítimas e repudia veementemente os atos criminosos investigados. O hospital disse ainda que os atos foram conduta individual de criminosos, praticada à revelia do estabelecimento, dos valores da medicina e da assistência em saúde, rapidamente identificada, investigada e neutralizada, com o imediato acionamento das autoridades competentes. 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