
Incêndio na Suíça lembra tragédia que marcou o Brasil O incêndio na Suíça lembrou uma tragédia que marcou o Brasil: a Boate Kiss. O repórter Ismar Madeira mostra o que mudou na legislação brasileira desde 2013. As imagens do incêndio na Suíça, que chegam pelo celular, tocam fundo nas lembranças do Flávio Silva. Para ele, é como rever as chamas da Boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2013. A filha dele foi uma das 242 vítimas da tragédia. "Olha, as semelhanças são muitas, muitas mesmo. Porque até pelo agente causador dessa tragédia, né? Artefatos pirotécnicos, mais uma vez. Isso é muito doloroso. Só tem um meio de evitar que tragédias como essa aconteçam: são as leis, a fiscalização e também a prevenção”, diz Flávio Silva, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria. Naquela noite de 27 de janeiro, a banda Gurizada Fandangueira se apresentava para um público de universitários. Em um momento do show, o vocalista acendeu um artefato pirotécnico que atingiu a espuma que revestia o teto, altamente inflamável. O fogo se espalhou rapidamente. No mesmo ano, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul tornou mais rígidas as regras para alvarás de casas noturnas. Mas houve flexibilização nos anos seguintes. Só em 2017 foi aprovada uma regulamentação federal, a Lei Kiss, que determina: prevenção e combate a incêndios nos cursos de Arquitetura e Engenharia; uso de materiais menos inflamáveis; e que os estabelecimentos criem acessos para socorro e retirada de vítimas em emergências. Incêndio na Suíça lembra tragédia da Boate Kiss Jornal Nacional/ Reprodução Gerardo Portela, engenheiro especialista em riscos e segurança, diz que a lei foi avanço, mas ainda não é suficiente: "Nós precisamos ter um código de prevenção de incêndios padronizado a nível nacional, para que todos os ambientes propícios a um tipo de acidente como esse sejam protegidos de forma similar. Porque essa padronização vai evitar materiais indevidos, a confusão, alguém que instalou em uma região onde é permitido material e esse material é proibido em outra, quando na verdade deveria ser proibido no país todo”. Na prática, cada estado define suas regras de segurança. Mas os fogos de artifício são uma preocupação geral. Os bombeiros alertam que mesmo os artefatos mais simples, permitidos em ambientes fechados, como as velas pirotécnicas, podem causar incêndios graves, dependendo de como são usados e da estrutura do lugar. Na demonstração em ambiente seguro, o bombeiro acende a vela pirotécnica e aproxima as faíscas de um tecido de algodão cru, que pega fogo na hora. Se fosse espuma, seria ainda pior. "Uma queima mais rápida e com produção maior de fumaça. Essa fumaça, inclusive tóxica, pode causar asfixia e morte no momento do incêndio”, afirma o bombeiro Maicon Cristo. Depois da Boate Kiss, São Paulo endureceu as normas para casas noturnas. "A gente fez, sim, ajustes e alteração na legislação, tanto com relação às saídas de emergência, com lotação dos locais de reunião de público, com controle de material de acabamento e revestimento, tecido, espuma sonora e tudo aquilo que reveste esses ambientes que reúnem o público, para que trouxesse mais segurança para população”, afirma o bombeiro Maicon Cristo. Para quem vive a dor de Santa Maria, a lei ainda precisa avançar. "A proibição do uso de artefatos pirotécnicos e similares em ambientes fechados. A gente precisa que isso aconteça, que esse passo seja dado aqui no Brasil e ganhe o mundo, seja proibido em todo o mundo esse tipo de artefato pirotécnico”, diz Flávio Silva. LEIA TAMBÉM Tragédia na Suíça: novo vídeo mostra fogo se espalhando pelo teto, enquanto pessoas dançam e filmam 'A história se repete', diz coletivo de sobreviventes da Boate Kiss sobre incêndio na Suíça; tragédias em baladas se acumulam nos últimos anos
