Com apenas 20 cm, ave viaja 7 mil km e pode ter voltado ao mesmo lugar em MG

Published 1 hour ago
Source: g1.globo.com
Com apenas 20 cm, ave viaja 7 mil km e pode ter voltado ao mesmo lugar em MG

Com apenas 20 cm, ave viaja 7 mil km e pode ter voltado ao mesmo lugar em MG No período de férias, não são apenas as pessoas que planejam viagens. Mesmo que discretamente, meses antes do "nosso verão", muitas aves migratórias deixam seus territórios de origem para percorrer milhares de quilômetros até um novo destino. Entre tantas espécies viajantes, uma presença ilustre voltou a aparecer em Delfim Moreira (MG): o sabiazinho-norte-americano (Catharus fuscescens). 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no WhatsApp Um ano após o primeiro registro inédito no município, a ave foi reencontrada na cidade, celebrada por pesquisadores e observadores de aves. Ela pode ter viajado mais de 7 mil quilômetros para chegar na cidade mineira. O nome popular já entrega a origem: a espécie pertence à América do Norte. Ela é encontrada em florestas úmidas do sul do Canadá e do leste e centro-norte dos Estados Unidos, onde se reproduz. Mas, no inverno boreal, deixa seu lar e se desloca para a América do Sul. Veja mais notícias do Terra da Gente: SELVAGEM: ‘Não conseguia acreditar’, diz estudante que filmou gavião com morcego vivo nas garras PROFUNDEZAS: Por que raias gigantes descem a 1 mil metros antes de viajar? VÍDEO: ‘UFC’ de tamanduás-mirins chama a atenção nas redes sociais Sabiazinho-norte-americano (Catharus fuscescens) flagrado em Minas Gerais Silvander Mendes Apesar de ser uma ave que pode ser encontrada no território brasileiro entre meados de outubro e abril, nem sempre é fácil observá-la. Desde o início do ano, o biólogo e guia de observação de aves Silvander Mendes vinha monitorando a área onde a espécie havia sido vista em 2025. Um dia após a última inspeção no local, o amigo e também observador Francisley Ribeiro detectou a chegada do viajante. “A sensação de encontrá-lo novamente é uma mistura de alegria e confirmação, entendimento sobre a natureza. Algo que sempre digo: a natureza é muito mais do que a gente já sabe e entende”, disse Silvander. “Ficamos muito felizes com a confirmação de algo que já aguardávamos”, acrescentou. Em 2025, o biólogo observou que o sabiazinho estava em um pequeno trecho de mata que sofreu alterações e possui inclusive pinheiros exóticos. Foi nesse território que a ave encontrou alimento por um período de 40 dias antes de realizar sua jornada de volta. O retorno do mesmo pássaro? A aparição do sabiazinho-norte-americano pelo segundo ano consecutivo no mesmo local despertou uma dúvida: será que este é o mesmo visitante do ano anterior? De acordo com Guilherme Brito, ornitólogo e professor adjunto do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a chance de ser exatamente o mesmo sabiazinho é grande, porém não é possível comprovar sem análises científicas. “É difícil de confirmar, pois o animal não foi ‘marcado’. Caso ele tivesse sido anilhado ou colocado um geolocalizador teríamos a confirmação. Geralmente os migrantes possuem certa fidelidade aos locais de invernada, então há uma possibilidade de ser o mesmo indivíduo sim”, explicou. Na natureza, nenhum registro é apenas um registro. A documentação em Delfim Moreira se destaca, já que pouco se sabe sobre a vida da espécie no território brasileiro. “Esse registro é interessante, pois mostra que a região em que foi registrado é uma importante área de invernada para a espécie migratória. Ela possui recursos suficientes para sustentar populações residentes e visitantes sazonais”, comentou Brito. Agora, Silvander pretende monitorar a espécie para obter ainda mais dados sobre o comportamento e os hábitos desse visitante alado. “Tenho interesse em conhecer mais sobre o ciclo migratório e fazer observações pontuais que podem ajudar a entender mais sobre essa espécie. Acho importante relatar e gerar informações que possam contribuir para a pesquisa”, finalizou. Além do sabiazinho, neste ano o biólogo detectou a presença de outra ave visitante, o piuí-boreal (Contopus cooperi), que também havia sido avistada no município em 2025 (veja o vídeo abaixo). Biólogo flagra piuí-boreal em Minas Gerais; confira Sabiá diferente O sabiazinho-norte-americano é uma ave de quase 20 cm que se diferencia dos padrões dos sabiás brasileiros. “É uma espécie de gênero diferente. A grande maioria dos ‘nossos’ sabiás são do gênero Turdus e esse faz parte do gênero Catharus. Geralmente eles são menores e com padrões pintados no peito e no ventre. E algumas espécies são migradores conhecidos de longas distâncias”, comentou o especialista Guilherme Brito. Sabiá-Laranjeira (Turdus rufiventris), uma das espécies encontradas no Brasil luciano_bernardes Temporada de férias A ave realiza essa longa jornada, que pode superar os 7 mil quilômetros, para fugir de um inverno rigoroso e da escassez de alimento no território gelado. Ela costuma deixar o hemisfério norte entre setembro e outubro, chegando ao Hemisfério Sul até o início de dezembro. "O ponto exato de origem é difícil de saber. Toda a população da espécie migra, pulverizando suas áreas de invernada na América do Sul toda, então distâncias podem variar bastante de indivíduo para indivíduo", disse o ornitólogo. Ele acrescenta enfatizando os motivos que levam o pequeno pássaro a realizar uma jornada tão longa. “Essa espécie é um migrante sazonal neártico clássico (proveniente do Hemisfério Norte). É o exemplo claro que vemos em desenhos animados de aves migrando para o Sul. O Sul é aqui. Devido ao frio extremo e à falta de recursos alimentares, muitas espécies buscam locais mais quentes”, explicou. No universo da observação, é comum que os apaixonados por aves fiquem à espera desses visitantes. O sabiazinho-norte-americano, apesar de vir para a América do Sul todo ano, não é observado com a mesma frequência que outras espécies. “Esse sabiá (e outras aves migratórias) acaba pulverizando os locais de invernada/descanso devido ao tipo de recurso que buscam. Então, poucos indivíduos chegam aos locais, que são geralmente matas mais fechadas, e por isso temos essa impressão”, disse Brito. Ele acrescentou que a detecção também é difícil porque, neste período, a ave vocaliza pouco. Além disso, entre setembro e abril, os registros tendem a ser maiores na região amazônica, que é a rota de passagem da espécie. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

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