Zé Renato e Claudio Nucci se afinam e se harmonizam em show que segue a toada de um Brasil bucólico e poético

Published 2 hours ago
Source: g1.globo.com
Zé Renato e Claudio Nucci se afinam e se harmonizam em show que segue a toada de um Brasil bucólico e poético

Zé Renato (à esquerda) e Claudio Nucci se reencontram no palco do Teatro Rival Petrobras em show idealizado para celebrar os 40 anos do único álbum dos cantores como dupla Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Claudio Nucci e Zé Renato 40 anos (1985 – 2025) Artistas: Claudio Nucci e Zé Renato Data e local: 23 de janeiro de 2026 no Teatro Rival Petrobras (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ Claudio Nucci e Zé Renato têm os violões para se acompanharem. Também têm duas das vozes mais bonitas da música brasileira. Quando harmonizadas, essas duas vozes seguem uma toada que leva os intérpretes e os ouvintes para um Brasil bucólico, poético, já utópico, em rota que passa pelas terras das Geraes desbravadas por Milton Nascimento. Foi esse roteiro de lindezas que os cantores seguiram mais uma vez na volta do show “Claudio Nucci e Zé Renato 40 anos (1985 – 2025)” ao Teatro Rival Petrobras, no Rio de Janeiro (R), na noite de ontem, 23 de janeiro. Idealizado no ano passado para celebrar as quatro décadas do primeiro e único álbum gravado pelos cantores como dupla, “Pelo sim pelo não” (1985), o reencontro dos cantores ignorou a passagem do tempo na primeira das duas apresentações do show no Teatro Rival Petrobras (a segunda acontece hoje, 24 de janeiro). É 2026, mas pareceu que era 1979 quando, quase no fim do show, Nucci e Zé puxaram “Toada (Na direção do dia)” (Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho, 1978), primeiro grande sucesso do Boca Livre, grupo que deu projeção nacional aos artistas. Munidos somente das vozes e dos próprios violões, os cantores permaneceram juntos no palco, lado a lado, durante todo o show – o que não impediu solos como os números individuais de Zé Renato em “Ânima” (Zé Renato e Milton Nascimento, 1982) e em “Flor de muçambê” (parceria inédita de Zé com Chico César em que música e letra estão em fina sintonia) e os solos de Nucci em “Quero quero” (Claudio Nucci e Mauro Assumpção, 1980) e “Meu silêncio” (1980), este menos sedutor para quem tem como referência a profundidade emocional do canto de Nana Caymmi (1941 – 2025), intérprete original da belíssima e tristonha canção composta por Nucci em 1976 e letrada pelo primeiro parceiro do artista, Luiz Fernando Gonçalves, com toda a dor pela morte então recente de um amigo, o “velho companheiro” do título original da música. Juntos, Claudio Nucci e Zé Renato se afinaram quando calçaram “Sapato velho” (Mu Carvalho, Claudio Nucci e Paulinho Tapajós, 1978) – número que fez o show assentar bonito já na abertura – e seguiram o bucólico trilho folk de “Acontecências” (Claudio Nucci e Juca Filho, 1980). Da seara mineira, os cantores hastearam “A bandeira do porvir” – música de Milton Nascimento e Marcio Borges, feita para espetáculo sinfônico estreado em 2012 e inédita em disco até ser gravada por Claudio Nucci e Zé Renato para o single de 2025 que celebrou os 40 anos do supracitado álbum “Pelo sim pelo não” – e “Quinhentas mais”, versão em português do mesmo Marcio Borges para “Five hundred miles” (Hedy West, 1962), música do repertório do trio norte-americano de folk Peter, Paul and Mary. A versão “Quinhentas mais” foi gravada por Nucci e Zé Renato no álbum de 1985 que projetou a melódica canção “A hora e a vez” (Claudio Nucci, Zé Renato e Ronaldo Bastos, 1985) e a música-título “Pelo sim pelo não” (Claudio Nucci, Zé Renato e Juca Filho, 1985), ambos incluídas na trilha sonora da novela “Roque Santeiro” (TV Globo, 1985 / 1986). As duas músicas integraram evidentemente o roteiro do show, sendo que, em “A hora e a vez”, impressionou pela naturalidade com que as vozes de Nucci e Zé Renato transitaram dos registros graves aos agudos. Para esse álbum em dupla, os cantores também gravaram – mas limaram da seleção final do disco – “Eu sambo mesmo” (Janet de Almeida, 1945), samba que desceu redondo no show em registro de vozes e violões que resultou mais sedutor do que a arquivada gravação de 1985, lançada enfim em 2025 como lado B do single “A bandeira do porvir”. Quando cantaram “Eu sambo mesmo”, os dois vocalistas mais conhecidos da história do grupo Boca Livre evocaram o grupo vocal Anjos do Inferno, intérprete original do samba abordado por João Gilberto (1931 – 2019) em álbum de 1991. João provavelmente avalizaria o canto do samba pela dupla. Sempre afinada, a cantoria ganhou sotaque caipira em “Papo de passarim” (Zé Renato e Xico Chaves, 1982) e se embrenhou pelas terras do Brasil rural em “Matança” (Augusto Jatobá, 1981), sucesso do cantador Xangai que Nucci e Zé Renato haviam revivido em evento em favor do meio ambiente. Entre o belo voo de “Blackbird” (John Lennon e Paul McCartney, 1968) e as oportunas lembranças de “Lamento sertanejo” (Dominguinhos e Gilberto Gil, 1973) e “As moças” (Zé Renato e Juca Filho), música do repertório do seminal Cantares (grupo vocal que desaguou no Boca Livre), os cantores reviveram “Salmo” – composição de Edu Lobo e Chico Buarque que tiveram o privilégio de gravar na trilha sonora do musical “O corsário do rei” (1985) – sem atingir no show o âmago dessa canção de grande força espiritual. Em contrapartida, “Ponta de areia” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974) soou arrepiante no canto a capella dos intérpretes. No arremate do bis, “Quem tem a viola” (Zé Renato, Claudio Nucci, Juca Filho e Xico Chaves, 1979) fechou em alto astral um grande show em que, à beleza harmônica da combinação das vozes dos cantores, somou-se o som folk de rio, mar e terra que pulsou nas cordas de metal. Zé Renato (à esquerda) apresenta parceria inédita com Chico César, 'Flor de muçambê', no roteiro do show feito com Claudio Nucci Rodrigo Goffredo

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