A menos de um mês do carnaval, Prefeitura de SP não divulga trajetos e horários; blocos criticam demora e falta de diálogo

Published 2 hours ago
Source: g1.globo.com
A menos de um mês do carnaval, Prefeitura de SP não divulga trajetos e horários; blocos criticam demora e falta de diálogo

Foliões no bloco Charanga do França, nesta segunda-feira (12) Fabio Tito/g1 A menos de um mês do início da folia, a Prefeitura de São Paulo não tem previsão de quando divulgará trajetos, datas e horários dos blocos de rua do Carnaval 2026. Organizadores dos blocos veem demora na organização, cobram diálogo com a prefeitura e criticam o valor do fomento para o carnaval de rua, que consideram insuficiente. Eles argumentam que a demora na divulgação da programação oficial dificulta o planejamento e a captação de recursos. “Se o bloco não sabe se vai sair, não consegue vender cota de apoio nem se organizar financeiramente”, diz José Cury Filho, coordenador do Fórum Aberto dos Blocos de Carnaval de São Paulo, que reúne cerca de 200 agremiações. No Guia de Regras e Orientações do Carnaval 2026, a prefeitura informa que a lista de blocos seria "publicada no Diário Oficial no dia 28 de novembro de 2025, após análise e validação das datas e trajetos pela Comissão Especial de Organização do Carnaval de Rua 2026, referente à 1ª e 2ª etapas de inscrições”. No entanto, na edição do Diário Oficial dessa data, a relação dos blocos não foi publicada. Procurada, a Prefeitura de São Paulo informou, em nota, que o cronograma segue a programação divulgada desde setembro do ano passado e que não há atraso (leia na íntegra abaixo). Cobrança por mais diálogo Em setembro do ano passado, a prefeitura publicou um decreto que criou a Comissão Especial de Organização do Carnaval de Rua 2026. Contudo, o grupo é formado apenas por secretarias, órgãos e empresas municipais, sem participação popular ou representação dos blocos. Para Zé Cury, as decisões da gestão Ricardo Nunes (MDB) são tomadas sem considerar a experiência de quem faz o carnaval de rua acontecer. Segundo ele, não existe uma interlocução entre a prefeitura e os coletivos de blocos. "O diálogo está absolutamente esquecido. Não há uma autoridade constituída que considere a cultura do carnaval eleita para falar com os coletivos de blocos. O secretário da Cultura [Totó Parente] nunca reuniu os coletivos de blocos para conversar sobre este carnaval”, reforça. Ensaios, blocos e festas já esquentam pré-carnaval em SP; confira programação Carnaval faz a capital faturar bilhões de reais Essa avaliação é reforçada por Thiago França, fundador da Espetacular Charanga do França. "Estou indo para o meu 11º carnaval, e é a quarta gestão [na prefeitura]. As pessoas vêm e vão. Quem está há dez anos fazendo carnaval sou eu. Quem sabe fazer sou eu, são os blocos que sabem fazer. As gestões são transitórias. Então, sempre as pessoas com mais experiência, que são os fazedores de carnaval, são as pessoas que não são escutadas nesse processo", diz França. Para o coordenador do Fórum, o carnaval de rua não vem sendo tratado como movimento cultural. “O carnaval está sendo tratado apenas como entretenimento de massa. Ele não está sendo observado sob a ótica da cultura do carnaval de rua de São Paulo, que é de resiliência e resistência”, afirma. Thiago França complementa que, embora o impacto econômico seja frequentemente destacado pela gestão pública, o aspecto cultural da festa é negligenciado. "O faturamento é importante para a prefeitura e para quem não conhece o carnaval, para entender a dimensão. Mas, culturalmente, isso é a nossa identidade. O Brasil é conhecido no mundo inteiro pelo carnaval. E eles estão tentando matar. A gente vai ser conhecido pelo quê? O que define o povo são as tradições, as festas, o nosso modo de viver. E eles estão querendo acabar com isso", afirma o fundador do Charanga. A prefeitura afirma manter a Central Permanente do Carnaval, um canal direto de diálogo e orientação, com atendimento presencial, por telefone, WhatsApp e e-mail. Contudo, segundo Thiago França, o canal não funciona na prática. "Você liga lá e conta os seus problemas. O pessoal diz que vai ver e retornar. E nada é dado sequência. Os blocos não são ouvidos, e a gente tem demandas", afirma. Foliões se divertem com o bloco Forrozin, comandado pela cantora Mariana Aydar, durante o carnaval de rua de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Os organizadores também questionam o modelo de fomento municipal, que atende apenas parte dos blocos e é definido muito próximo do carnaval, o que gera disputas e desigualdades. Neste ano, somente 100 blocos foram selecionados para receber apoio financeiro de até R$ 25 mil cada um, totalizando R$ 2,5 milhões em recursos da gestão municipal. No ano passado, o carnaval da cidade de São Paulo atraiu 16 milhões de foliões e movimentou R$ 3,4 bilhões, com criação de 50 mil empregos diretos e indiretos entre 22 de fevereiro e 9 de março. Para os organizadores ouvidos pelo g1, apesar do impacto econômico expressivo e da arrecadação de impostos gerada pela festa, o retorno em políticas públicas para os blocos é considerado extremamente baixo, representando menos de 0,07% do total movimentado. A organizadora Thais Haliski, do bloco Acadêmicos da Cerca Frango e uma das fundadoras da Comissão Feminina do Carnaval de Rua, relata que os custos para colocar um bloco na rua cresceram de forma exponencial nos últimos anos. Segundo ela, despesas com caminhão, cordeiros, ensaios em estúdio e estrutura básica podem ultrapassar R$ 60 mil, valor muito superior ao fomento oferecido pela prefeitura. “O recurso não cobre nem metade do custo real”, afirma. Para viabilizar os desfiles, muitos blocos precisam promover festas pagas e correr atrás de patrocinadores ao longo do ano. De acordo com Thais, essa lógica tem transformado o carnaval em um negócio obrigatório, com impacto direto na identidade dos blocos. "A cada ano que passa, a gente tem que fazer mais festas, mais dinheiro precisa entrar, que todo mundo coloca do próprio bolso. A gente tem que ir atrás de patrocinador, fazer reunião. Porém, eles exigem contrapartidas que muitas vezes descaracterizam os blocos. Então, em vez de a bateria sair, por exemplo, fantasiada, tem que sair com uma camiseta que obrigatoriamente tenha o logo do patrocinador", desabafa. Tanto Thais quanto Cury defendem a criação de uma política pública permanente para o carnaval de rua, com regras claras, planejamento antecipado e participação direta dos blocos nas decisões. Segundo eles, a ausência de uma legislação específica faz com que cada gestão altere o modelo da festa, gerando insegurança e desgaste para quem organiza. O que diz a prefeitura "A Prefeitura de São Paulo informa que o cronograma do Carnaval de Rua 2026 segue a programação divulgada desde setembro do ano passado e não há qualquer atraso. Os blocos com mais de 15 mil participantes tiveram até 15 de janeiro para enviar o Plano de Operação e Segurança, que está em fase de validação pelos órgãos competentes, conforme previamente anunciado. Para garantir a comunicação constante, a Prefeitura mantém a Central Permanente do Carnaval, canal direto de diálogo e orientação, com atendimento presencial, por telefone, WhatsApp e e-mail. Sobre o fomento, a gestão destaca que R$ 2,5 milhões são destinados a um dos segmentos do Carnaval, uma festa de grande porte que envolve diversas frentes culturais e de organização. O montante permite que até 100 blocos recebam R$ 25 mil cada para a produção, o desenvolvimento e a difusão das atividades do Carnaval de Rua em 2026, sem prejuízo da necessidade de investimentos em outras áreas da programação." Foliões se divertem com o bloco Perdi Foi Tudo na Rua Augusta, região centro-sul de São Paulo. Wagner Origenes/Ato Press/Estadão Conteúdo

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