
Por que a Groenlândia é tão importante para os EUA? Donald Trump quer que os Estados Unidos se apoderem da Groenlândia e, no sábado (17), anunciou tarifas contra oito países europeus que se opuseram às suas ambições e enviaram tropas para a ilha ártica nos últimos dias. O presidente americano insiste que seu país precisa da Groenlândia por razões de "segurança nacional" e não descartou a possibilidade de tomá-la com uso da força. Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos tentam anexar um território dinamarquês. Há mais de 100 anos, longe do frio polar da Groenlândia, no calor do Caribe, algumas pequenas ilhas passaram de propriedade da Dinamarca para possessão dos Estados Unidos. Naquela época, o governo americano também citou razões estratégicas e de autodefesa. Mas, diferentemente de agora, os dinamarqueses concordaram e um acordo de compra foi firmado. A Groenlândia também fazia parte da proposta, já que, no pacto assinado pelos dois governos, os EUA se comprometeram a respeitar o controle dinamarquês sobre a grande ilha no Ártico. Esta é a história de como as Índias Ocidentais Dinamarquesas se tornaram as Ilhas Virgens Americanas — e de como uma potência europeia em declínio cedeu algumas possessões ultramarinas à potência emergente da época. LEIA TAMBÉM Europeus anunciam reforço da segurança no Ártico, e Groenlândia agradece União Europeia faz reunião de emergência após Trump anunciar tarifas Por que Trump quer tanto a Groenlândia? Premiê espanhol diz que invasão dos EUA à Groenlândia 'faria Putin feliz' Onde ficam as Ilhas Virgens Americanas? As Ilhas Virgens Americanas são um pequeno arquipélago sob controle dos EUA no Caribe, a leste de Porto Rico. As principais ilhas são Saint John, Saint Thomas e Saint Croix, mas também existem cerca de cinquenta outros ilhéus e recifes. Com uma população estimada em 83 mil habitantes, as ilhas são um território não incorporado dos Estados Unidos. Os nativos são cidadãos americanos, mas não podem votar nas eleições presidenciais. Altamente vulneráveis a furacões devido à localização geográfica, na abertura leste do Caribe para o Oceano Atlântico, as ilhas são cercadas por recifes de coral. A economia local é baseada no turismo, e três em cada quatro habitantes são de ascendência africana. Por que esse território pertencia à Dinamarca? Durante séculos, as ilhas foram conhecidas como Índias Ocidentais Dinamarquesas. Nos séculos 16 e 17, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses disputaram periodicamente o controle dessa região, frequentemente usada como refúgio pelos temidos piratas do Caribe. Em 1684, a Dinamarca tomou o controle de Saint John e afirmou sua soberania sobre a ilha. Pouco antes, havia feito o mesmo com Saint Thomas. Os dinamarqueses então começaram a desenvolver grandes plantações de cana-de-açúcar no local, por meio da exploração de escravizados trazidos da África por comerciantes europeus. O comércio de açúcar foi o que, durante séculos, manteve as ilhas e os colonos dinamarqueses que obtiam os lucros dessa atividade. A memória dessa época permanece nos nomes de algumas cidades das ilhas, como Christiansted e Frederiksted, dados em homenagem aos reis dinamarqueses da época. A população local nunca foi consultada sobre a venda da ilha para os Estados Unidos Getty Images via BBC Por que os EUA estavam interessados nas Ilhas Virgens? Na segunda metade do século 19, as coisas começaram a mudar. O poder dinamarquês estava em declínio, e os Estados Unidos emergiam da Guerra Civil (1861-1865) convictos da necessidade de afirmar sua força no continente americano e reduzir a influência das antigas potências europeias. Em consonância com a chamada Doutrina Monroe, formulada na década de 1820, os líderes políticos americanos optaram pela expansão territorial e pelo fortalecimento naval. O historiador dinamarquês Hans Christian Berg explica em um artigo que, "após a Guerra Civil, era hora de considerar as condições estratégicas no Caribe, e o Secretário de Estado W. H. Seward concentrou-se tanto na anexação do México quanto em uma possível expansão americana no Caribe". Para os estrategistas americanos, o porto de Saint Thomas era de particular interesse. Hoje um centro para grandes navios de cruzeiro carregados de turistas, esse local era então visto como uma base ideal para controlar o Caribe devido à excelente proteção natural oferecida pela topografia local. Na Dinamarca, devido à queda dos preços do açúcar, as ilhas passaram a ser vistas cada vez mais como um fardo — uma visão que as sucessivas revoltas dos escravizados negros que cultivavam a cana-de-açúcar só reforçariam. Segundo Berg, "para os dinamarqueses, era principalmente uma questão econômica". Assim, ambos os governos começaram a negociar uma possível venda das ilhas e, em 1867, assinaram um tratado pelo qual os Estados Unidos as adquiriram em troca de US$ 7,5 milhões em ouro. Mas essa primeira tentativa de transação não se concretizou. Em 1868, os EUA finalizaram a aquisição de outro território ártico, o Alasca, comprado da Rússia czarista por aproximadamente US$ 7 milhões, uma aposta de Seward que provocou críticas e até mesmo piadas por parte daqueles que, nos Estados Unidos, consideravam esse território apenas um pedaço de terra congelado, sem valor econômico ou estratégico. A controvérsia em torno da compra do Alasca contribuiu para que o Congresso dos Estados Unidos, em última instância, não ratificasse o tratado de aquisição das Índias Ocidentais Dinamarquesas. A Dinamarca vendeu aos EUA o que na época era conhecido como Índias Ocidentais Dinamarquesas, atualmente Ilhas Virgens Americanas Bonnie Jo Mount / Getty via BBC Primeira Guerra Mundial e a compra das Ilhas Virgens Americanas A eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) acabou por inclinar a balança a favor da compra da ilha pelos Estados Unidos. A Europa estava se exaurindo em uma longa guerra de trincheiras, e os Aliados estavam ansiosos para que os Estados Unidos entrassem no conflito para derrotar a Alemanha e o resto das chamadas Potências Centrais. O presidente Woodrow Wilson não conseguiu convencer o Congresso ou o público americano sobre o motivo de se envolver no conflito, mas a crescente frustração com os ataques de submarinos alemães, os temidos U-boats, contra navios mercantes americanos e até mesmo navios de passageiros, estava prestes a mudar tudo. Segundo Astrid Andersen, do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, "a Dinamarca manteve-se neutra na guerra, e o temor em Washington era de que a Alemanha pudesse invadir o país e, assim, tomar o controle das ilhas e do porto de Saint Thomas". Se caísse em mãos alemãs, o local poderia se tornar o esconderijo perfeito para submarinos inimigos lançarem ataques contra navios americanos ou mesmo contra território americano — o pior pesadelo para os estrategistas dos EUA. Com a expulsão da Espanha de Cuba e Porto Rico na Guerra Hispano-Americana de 1898, as ilhas eram um dos poucos vestígios da presença europeia no Caribe. A construção do Canal do Panamá em 1914 aumentou ainda mais o interesse dos EUA na região e na segurança de suas rotas marítimas. Nesse contexto, os governos de Washington e Copenhague iniciaram negociações nas quais, segundo Andersen, a posição dos EUA se assemelhava à que Trump adota atualmente em relação à Groenlândia. "Há ecos do que estamos ouvindo agora, porque o que os Estados Unidos vieram dizer foi: 'Ou vocês nos vendem ou vamos invadir'", compara Andersen. Finalmente, em agosto de 1916, os dois países concordaram com a venda das ilhas aos Estados Unidos por US$ 25 milhões em ouro — o equivalente a cerca de US$ 630 milhões (R$ 3,3 bi) hoje, segundo estimativa da Bloomberg. Como parte do acordo, os Estados Unidos prometeram não se opor à "extensão dos interesses políticos e econômicos da Dinamarca em toda a Groenlândia" — algo que o governo Trump talvez prefira esquecer. O acordo foi ratificado pelos dois países desta vez. Os dinamarqueses também aceitaram a ideia, ao votar a favor da venda de forma esmagadora em um referendo. Na realidade, acredita Andersen, "a maioria dos dinamarqueses não considerava aquelas ilhas como parte da Dinamarca". O historiador recorda que população das ilhas não teve qualquer voz nessas decisões. Finalmente, em 31 de março de 1917, a bandeira dos Estados Unidos foi hasteada pela primeira vez sobre os edifícios governamentais das ilhas, numa cerimônia solene. Na mesma ocasião, uma guarda de honra dinamarquesa baixou a bandeira da Dinamarca pela última vez e levou-a para sempre num navio. Esta é provavelmente a cena que Trump sonha se repetir na Gronelândia, mais de um século depois — o problema é que, desta vez, a Dinamarca não quer vender. Os turistas desfrutam das paisagens hoje em dia, alheios às rivalidades entre potências que marcaram a história das Ilhas Virgens Americanas Getty Images via BBC
