
Estudos científicos vêm mostrando nos últimos anos o potencial de tratamento de diversos transtornos de saúde mental com drogas psicodélicas Getty Images/BBC Larissa Hope acredita que a psilocibina — o ingrediente ativo presente nos cogumelos mágicos — a tenha ajudado a enfrentar uma difícil condição de saúde mental. Quando começou sua carreira de atriz, aos 17 anos, ela foi escalada para a série de TV Skins: Juventude à Flor da Pele (2007-2013). Mas a fama recém-descoberta trouxe à tona um trauma até então enterrado. Os antidepressivos não fizeram efeito para ela, mas uma pequena dose de psilocibina, administrada sob supervisão clínica, trouxe uma reviravolta. "Quando experimentei, desatei a chorar", relembra ela. "Tive pela primeira vez na vida uma sensação de pertencimento e segurança no meu corpo e fiquei repetindo 'estou em casa, estou em casa'." Agora, quase 20 anos depois, Hope defende que foi a substância que, ao lado da terapia, a ajudou a enfrentar seus pensamentos suicidas. Nem todas as pessoas sentem o mesmo efeito. O pesquisador universitário Jules Evans teve uma experiência muito diferente quando experimentou LSD pela primeira vez, com fins recreativos, quando tinha 18 anos. Sua viagem o levou para o que ele descreve como estado "ilusório". "Eu achava que todos estavam falando de mim, me criticando, me julgando", ele conta. "Pensei que tivesse sofrido uma avaria permanente, perdido o juízo de vez. Foi a experiência mais apavorante da minha vida." Atualmente, Evans é diretor do Projeto de Experiências Psicodélicas Desafiadoras, que ajuda as pessoas que enfrentam dificuldades depois de tomar psicodélicos. Ele conta que se sentia socialmente ansioso e sofreu ataques de pânico anos depois da sua experiência. Ele foi diagnosticado com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Mas estas duas experiências totalmente diferentes são centrais para um dilema enfrentado atualmente pelos médicos, políticos e pelos órgãos reguladores. Afinal, os médicos devem ou não ser autorizados a prescrever tratamentos que envolvam o uso de cogumelos mágicos e outras drogas psicodélicas potencialmente úteis? Os cogumelos mágicos e a depressão Esta questão veio à tona em meio a uma série de novos estudos que indicam que as drogas psicodélicas podem ajudar a tratar a depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, TEPT, trauma e dependência, por exemplo, de álcool e jogos. Atualmente, a medicina psicodélica é ilegal, exceto para pesquisas ou testes clínicos autorizados. Mas, desde 2022, mais de 20 estudos analisaram diferentes medicações psicodélicas para o tratamento de condições como depressão, TEPT e dependência. Os resultados de muitos desses estudos indicam que os tratamentos podem ajudar, enquanto vários outros tiveram resultados mistos ou incertos. Poucos estudos, até o momento, deixaram de encontrar claramente benefícios nas suas principais avaliações. O professor Oliver Howes, presidente do Comitê de Psicofarmacologia do Colégio Real de Psiquiatras do Reino Unido, considera os psicodélicos como um possível e promissor tratamento de transtornos psiquiátricos, incluindo para pacientes do serviço britânico de saúde pública, o NHS Getty Images A empresa britânica de biotecnologia Compass Pathways deve publicar ainda este ano os resultados de um dos maiores testes clínicos já realizados sobre o uso de psilocibina. O órgão regulador dos medicamentos do Reino Unido aguarda estes dados para analisar se deve reduzir as fortes restrições atuais e permitir o uso da medicina psicodélica fora do campo dos testes e pesquisas. O professor Oliver Howes, presidente do Comitê de Psicofarmacologia do Colégio Real de Psiquiatras do Reino Unido, está otimista. Ele considera os psicodélicos um possível e promissor tratamento para transtornos psiquiátricos, incluindo para pacientes do NHS, o sistema britânico de saúde pública. "Um dos principais alertas é que se trata de algo de que precisamos desesperadamente — mais e melhores tratamentos para transtornos de saúde mental", explica Howes. "Estes tratamentos são muito interessantes, pois demonstraram ser promissores nos estudos em pequena escala e têm potencial de funcionar com mais rapidez." Mas ele também é cauteloso e enfatiza a necessidade de observar os resultados dos testes. Para Howes, "é muito importante conseguir evidências e não supervalorizar os potenciais benefícios". O professor não é o único a aconselhar cautela. Um relatório do Colégio Real de Psiquiatras, publicado em setembro de 2025, alertou sobre os possíveis riscos dos psicodélicos e os médicos também destacam que tomar drogas psicodélicas não é apenas contra a lei, mas também pode ser prejudicial. Ação mais rápida e menos efeitos colaterais? O uso de drogas é tão antigo quanto a própria civilização humana. Cogumelos mágicos, ópio e cannabis são consumidos há muito tempo para fins recreativos e em rituais. Nos anos 1960 e 1970, o LSD foi adotado pelo movimento da contracultura. Na época, o psicólogo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e guru da contracultura, Timothy Leary (1920-1996), incentivava os jovens a "se ligar, se sintonizar e cair fora". Em outras palavras, se ligar e despertar seu potencial interno; se sintonizar no estado da sociedade à sua volta; e cair fora, abandonando as normas sociais da época. Mas essas drogas logo foram associadas a distúrbios sociais e ao declínio moral. Nos anos 1960, o psicólogo americano Timothy Leary (1920-1996) incentivava as pessoas a 'se ligar, se sintonizar e cair fora' Getty Images Quando as drogas psicodélicas foram proibidas, no final dos anos 1960 e início da década de 1970, foram também aplicadas restrições mais fortes às pesquisas científicas sobre o assunto. Mas uma série de desenvolvimentos científicos inovadores nos anos 2010, pelo professor David Nutt e sua equipe do Imperial College de Londres, deu início a um processo que pode muito bem alterar este panorama. Em testes clínicos subsequentes com pacientes com depressão, a psilocibina se mostrou, pelo menos, tão eficaz quanto os antidepressivos convencionais, com menos efeitos colaterais. E ainda houve uma outra grande vantagem, segundo Nutt: a rapidez de ação. "Achamos que, em vez de esperar oito semanas para que os antidepressivos desliguem a parte do cérebro associada à depressão, talvez a psilocibina possa fazer o desligamento em questão de poucos minutos", explica o professor. Esta visão é cientificamente promissora, mas não é universalmente aceita. Uma série de novos estudos indica que as drogas psicodélicas podem tratar a depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e TEPT Getty Images Nutt é um cientista respeitado. Mas suas avaliações despertaram controvérsias. Em 2009, ele foi demitido do cargo de presidente do órgão consultor de drogas do governo britânico, o Comitê Consultor sobre Abuso de Drogas, pelo então secretário de Assuntos Domésticos trabalhista Alan Johnson. A demissão se seguiu a certos comentários públicos, como defender que "não havia muita diferença" entre os danos causados por montar cavalos e o ecstasy. As declarações foram consideradas incompatíveis com seu cargo como consultor do governo. Nos últimos anos, os estudos do professor Nutt despertaram muitas outras investigações em todo o mundo, sobre os possíveis benefícios terapêuticos de outras drogas psicodélicas. O serviço público de saúde deveria oferecer psicodélicos? No University College de Londres, o neurocientista Ravi Das vem tentando compreender por que alguns hábitos se consolidam criando dependência, enquanto outros desaparecem. Ele acredita que os psicodélicos podem ajudar a encontrar a resposta. O estudo liderado por ele recruta dependentes de álcool para verificar se dimetiltriptamina (DMT), um psicodélico de curta duração também usado como droga recreativa, pode ser usado para tratar os sistemas de memória e aprendizado do cérebro. Seu estudo acumula evidências que sugerem que a psilocibina pode interromper os comportamentos relacionados à dependência. "Sempre que alguém bebe, meio que como o cão de Pavlov, você aprende a associar coisas no ambiente ao efeito recompensador do álcool", afirma ele. "Nós nos concentramos em descobrir se certas drogas, como os psicodélicos, podem romper essas associações." Este é um estudo em estágio muito inicial, mas se os resultados forem positivos, ao lado de testes futuros, o objetivo é oferecer os psicodélicos como tratamento no NHS britânico, mediante aprovação do órgão regulador do país. "Se ficar comprovado que as terapias psicodélicas são seguras e mais eficazes que os tratamentos atuais, eu esperaria que elas fossem oferecidas por meio do NHS, não apenas para os poucos privilegiados que podem pagar por eles na medicina particular", explica ele. A cetamina foi objeto de um estudo anterior de Ravi Das. Ela é enquadrada em outra categoria legal e pode ser usada como parte de tratamentos médicos no Reino Unido. Já outros psicodélicos, como DMT, LSD, psilocibina e MDMA, atualmente não têm uso medicinal legítimo. Por isso, só podem ser usados para pesquisas — e, mesmo assim, com licenças médicas muito rigorosas e dificilmente obtidas. Das acredita que resultados positivos dos estudos possam alterar as opiniões, à medida que crescem as evidências científicas a respeito. Ravi Das examina se o psicodélico de curta duração dimetiltriptamina (DMT) pode ser usado para tratar os sistemas de memória e aprendizado do cérebro de dependentes do álcool Getty Images "Espero que, se houver evidências suficientes, o governo fique aberto à revisão da classificação dessas drogas", afirma ele. Mas uma análise publicada pelo British Medical Journal em novembro de 2024, pelo estudante de PhD Cédric Lemarchand e seus colegas, questionou a facilidade da determinação do efeito preciso das drogas psicodélicas. "Como os alucinógenos são frequentemente combinados com um componente psicoterápico, fica difícil separar os efeitos da droga do contexto terapêutico, o que complica avaliações abrangentes e a elaboração dos rótulos dos produtos." O estudo também sugeriu que testes de curto prazo podem não detectar o potencial de danos e efeitos prejudiciais sérios do uso de alucinógenos a longo prazo, e o potencial de abuso ou mau uso também deve ser considerado. 'Falha moral' Mesmo com os benefícios terapêuticos dos medicamentos psicodélicos sugeridos pelas pesquisas, os médicos permanecem cautelosos. Howes acredita que os tratamentos com psicodélicos não devem ser prática médica de rotina no Reino Unido fora dos ambientes de pesquisa, enquanto estudos maiores e mais rigorosos não fornecerem evidências mais robustas da sua segurança e eficácia. A exceção seria a cetamina, que já foi avaliada pelo órgão regulador. "No ambiente de um teste clínico, os psicodélicos são avaliados com muito cuidado", explica o professor. "Se as pessoas tomarem essas substâncias de forma independente ou em uma clínica irregular, não há garantias e as questões de segurança passam a ser uma preocupação importante." Seus alertas são apoiados pelos números de diversos estudos, reunidos pelo Projeto de Experiências Psicodélicas Desafiadoras. Eles indicam que 52% dos participantes que usam drogas psicodélicas regularmente afirmam terem passado por uma viagem psicodélica intensa e desafiadora, considerada por 39% deles como "uma das cinco experiências mais difíceis" das suas vidas. Além disso, 6,7% declaram terem pensado em se ferir, a si próprios ou a outras pessoas, após uma experiência desafiadora e 8,9% relataram terem ficado "debilitados" por mais de um dia, após uma viagem difícil. Algumas pessoas necessitaram de assistência médica ou psiquiátrica e continuaram se sentindo pior por semanas, meses ou, em alguns casos, anos após a sua experiência, segundo Evans. "Idealmente, eu adoraria que os médicos e órgãos reguladores soubessem mais sobre esses efeitos adversos e como as pessoas podem se recuperar deles, antes de afirmar que alguma dessas terapias é segura", defende ele. Sessão da empresa britânica Compass Pathways mostra uma paciente recebendo terapia psicodélica orientada Compass Pathways Mas David Nutt, Oliver Howes e Ravi Das acreditam que o progresso rumo ao tratamento médico é mais lento devido à dificuldade de obter permissão para conduzir testes clínicos supervisionados por médicos. "Existem muitas pessoas sofrendo desnecessariamente", declarou Nutt. "E algumas delas estão morrendo devido a barreiras injustificadas às pesquisas e tratamento que encontramos no Reino Unido. Na minha opinião, esta é uma falha moral." "Quando se comprovar que esses medicamentos são seguros e eficazes, acho fundamental que eles sejam disponibilizados pelo NHS para todos os que deles necessitem, sem limitá-los ao setor privado, como aconteceu com a cannabis medicinal." O professor Howes aconselha cautela, mas é da mesma opinião. "Existem grandes barreiras para estes estudos", explica ele. "Por isso, pedimos ao governo que analise as regulamentações dessas substâncias para pesquisas, pois elas realmente geram longos atrasos e precisamos urgentemente de novos tratamentos." A análise de Lemarchand pede maior escrutínio dos testes. "Para garantir que os alucinógenos sejam avaliados rigorosamente antes de serem aprovados como tratamentos seguros e eficazes, as publicações médicas devem avaliar as evidências de forma mais crítica, considerar todas as limitações, evitar suposições e afirmações sem fundamento e corrigir os registros quando necessário." O Conselho Consultor sobre o Mau Uso de Drogas também afirma abertamente que o Anexo 1 "contém substâncias sem valor medicinal" e, por isso, deve receber os controles mais rígidos. Os ministros também relacionam diretamente o regime de licenciamento do Escritório de Assuntos Domésticos à proteção do público. Ravi Das defende que, quando ficar comprovado que as terapias psicodélicas são seguras e eficazes, elas sejam disponibilizadas pelo serviço de saúde pública do Reino Unido Getty Images O governo britânico apoia os planos de reduzir as exigências de licenciamento para alguns testes clínicos aprovados pela Agência Regulatória de Medicamentos e Produtos de Assistência Médica e pela Autoridade de Pesquisas de Saúde. E existem trabalhos em andamento para implementar isenções para certas universidades e instalações do NHS. Um grupo de trabalho multidisciplinar do governo coordena cuidadosamente os desdobramentos, aguardando os resultados de projetos piloto. Mas alguns médicos, incluindo Howes, afirmam que as mudanças estão ocorrendo de forma terrivelmente lenta. "Existem muitos sinais vermelhos atrasando o processo", segundo ele. Os apoiadores dos medicamentos psicodélicos esperam que os chamados estudos de três fases da empresa Compass Pathways tragam maior flexibilização, pelo menos em relação às pesquisas. Paralelamente, Larissa Hope acredita que estes testes são importantes. Ela afirma que sua experiência com a psilocibina a ajudou a entender melhor suas experiências sobre traumas e pensamentos suicidas. "Eu tinha um plano concreto para pôr fim à minha vida", ela conta. "Então, de repente, a morte não era o único caminho." "Com a psilocibina, meu sistema nervoso começou, pela primeira vez, a reconhecer a sensação de paz." Caso você seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda: O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia; há também a opção de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento em todo o Brasil; Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece também o chat Pode Falar; Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone 190); Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192; Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h; Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil. Para aqueles que perderam alguém para o suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio.
