
Presidente Lula condenou a ação de Donald Trump na Venezuela A manifestação oficial veio numa nota, por volta das dez da manhã. Sem citar os nomes de Nicolás Maduro e Donald Trump, Lula disse que os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. "Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional", diz a nota. “Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo.” Lula afirmou que a condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões. Declarou que a ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz. E concluiu: “A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação.” O presidente convocou, em seguida, uma reunião de emergência no Palácio do Itamaraty. Lula condena ataque dos EUA à Venezuela e fala em violação do direito internacional TV Globo Lula e o ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, que estão fora de Brasília, participaram da conversa por videoconferência. A principal preocupação do governo brasileiro era compreender a extensão do ataque e os próximos passos de Donald Trump. No mês passado, Lula chegou a telefonar para Nicolás Maduro para discutir, segundo a Presidência, a paz na América do Sul e no Caribe. Essa conversa não chegou a entrar na agenda oficial do presidente Lula e só foi confirmada dias depois. Hoje, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, informou que 200 militares fazem plantão na cidade de Pacaraima, em Roraima, e outros dois mil permanecem de prontidão no estado. Ao todo, dez mil militares atuam na Amazônia. A ministra interina das Relações Exteriores informou que nenhum brasileiro foi atingido pelo ataque americano e que os turistas não encontram obstáculos para deixar a Venezuela. A longa crise no país vizinho teve reflexos diretos no território brasileiro. Desde 2017, o Brasil emitiu mais de 600 mil autorizações de residência para venezuelanos. Inicialmente, quando voltou ao poder, em 2023, Lula se reaproximou da Venezuela, depois do rompimento das relações diplomáticas entre os dois países ocorrido no governo anterior, de Jair Bolsonaro. Mas a relação entre Brasil e Venezuela voltou a ficar distante depois das eleições venezuelanas em 2024, quando o governo Lula não reconheceu a vitória de Maduro, considerada ilegítima e fraudulenta por observadores internacionais. Em uma segunda reunião, no Palácio do Itamaraty, também com a participação do presidente Lula, o governo discutiu os próximos passos. Neste domingo (4), o Ministério das Relações Exteriores vai participar de uma reunião da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos para discutir a crise. O Brasil também estará na reunião do Conselho de Segurança da ONU. “O Brasil continua sendo a favor do direito internacional, que é a posição tradicional brasileira, contra qualquer tipo de invasão territorial, pela soberania dos países. O que está na declaração do presidente de hoje de manhã continua sendo a posição do Brasil, que será também apresentada na reunião do Conselho de Segurança convocada para segunda-feira”, disse a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha. A especialista em relações internacionais Carolina Pavese disse que a nota de Lula foi dura e direta contra a invasão americana. Mas que, em nenhum momento, o presidente brasileiro citou Nicolás Maduro, num sinal, segundo ela, do distanciamento entre os dois. “Foi uma nota cautelosa, mas bem assertiva, que deixou muito claro um esforço em firmar um distanciamento entre uma crítica ao ataque unilateral dos EUA à Venezuela e as violações de direito internacional que isso implica, de qualquer possibilidade disso estar representando um apoio ao governo de Maduro”, disse Pavese. Na avaliação da especialista, o Brasil está certo em buscar o diálogo e a mediação de organismos internacionais para resolver a situação. "Nós viemos de um ano muito conturbado para essas relações, encerramos o ano com uma possibilidade de mais diálogo ser aberto com os Estados Unidos, principalmente entre Trump e Lula. Um resfriamento do protecionismo que foi colocado, sinalizando essa possibilidade de 2026 ser um ano melhor para essas relações bilaterais. É importante ter muito cuidado em preservar essas relações e preservar justamente esse diálogo que tem sido construído a duras penas pelo governo brasileiro, não comprometer essas relações bilaterais", disse a especialista em relações internacionais.
